Geni e o Zepelim, Chico Buarque, Liniker e a quebra da roda da hipocrisia

Tornou-se assunto na internet a canção Geni e o Zepelim, do Chico Buarque, interpretada na voz lacradora do Liniker. A cena aconteceu durante o programa Amor e Sexo que tratava sobre questões de gênero, mas não quero entrar no mérito do que é convencional ou não para a Rede Globo, o assunto aqui é outro.

Depois de todos os debates e discussões e informações dadas durante o programa, eis que aparece Liniker, interpretando maravilhosamente a canção Geni e o Zepelim, com uma mensagem bem além das linhas escritas por Chico. Primeiro, ouça a música na voz de Chico:

Antes de tudo, é preciso lembrar que a música composta por Chico Buarque faz parte da obra A Ópera do Malandro, e é cantada pela travesti Geni. A letra pode não nos trazer essa informação, mas colocada no contexto da obra temos a capacidade de entender os diversos sentidos que a letra nos traz.

Os versos nos trazem a doçura de uma personagem feminina que faz o que pode para ajudar outras pessoas, e isso acontece logo na segunda e terceira estrofe, com “Dá-se assim desde menina, na garagem, na cantina, atrás do tanque, no mato”, e recebe adjetivos como “rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos, dos moleques do internato”. Na terceira estrofe vemos um lado mais humano que “também vai amiúde, com os velhinhos sem saúde, e as viúvas sem porvir”.

Mas na ótica de uma sociedade julgadora, vemos Geni como uma personagem promíscua, vinda do ‘submundo’, em que se tem o livre direito de cuspir e jogar pedras. Em dado momento da história essa opinião muda. Chega um Zepelim que quer destruir a cidade, mas anuncia que mudaria de ideia “se aquela formosa dama, esta noite me servir”.

Geni torna-se uma heroína e passa a ser tratada como donzela, com isso “A cidade em romaria, foi beijar a sua mão. O prefeito de joelhos, o bispo de olhos vermelhos, e o banqueiro com um milhão”. Todos imploram que Geni salve a cidade, e ela o faz “dominando seu asco” e entregando-se ao comandante Zepelim.

“Mas logo raiou o dia, e a cidade em cantoria, não deixou ela dormir” com o refrão “Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni! Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!”. Chico nos traz de forma poética uma descrição da roda hipócrita da sociedade. Mesmo Geni salvando a cidade eles voltam a julga-la, e ofende-la.

É justamente essa roda trazida da música que me fez emocionar ao ver Liniker cantando no programa Amor e Sexo. Quando o coro começa a “jogar pedras”, ele logo interrompe esse ciclo, e quebra a roda dizendo “Não joga!”. Veja abaixo:

Liniker disse diretamente, o que Chico Buarque nos diz de forma poética. E precisamos de mais pessoas que quebrem essa roda, esse círculo vicioso, como foi quebrado na apresentação no programa Amor e Sexo. O lacrador Liniker ainda completa: “O Brasil é o país que mais mata travestis, transexuais, homossexuais e bissexuais no mundo. Isso tem que acabar. Basta! Só assim podemos nos redimir… Bendita, Geni!”

Essa é a mensagem principal, deixar de enxergar as diversas Genis do Brasil como alguém do ‘submundo’ e entender todo o lado humano que toda pessoa traz. E isso vale para tanto para questões de gênero, quanto para os ‘juízes de facebook’ que vivem cuspindo e atirando pedra. É por isso que eu arrepiei quando vi Liniker cantando Geni e o Zepelim.

Comentários

Comentários

%d blogueiros gostam disto: