A Contorno Imaginária de Três Pontas – por Adriana Silva Santiago

Inaugurada em 1887 como capital da então Província de Minas Gerais, Belo Horizonte foi idealizada para ser o oposto da antiga capital Ouro Preto. A nova capital deveria representar o novo, o belo, e, principalmente, representar a modernidade, os ideais republicanos que já “rondavam” as cabeças dos intelectuais, poetas e pensadores da época. O estilo arquitetônico neo clássico foi escolhido para dar forma àquela idéia de modernidade. E uma coisa em particular marcou sua construção: os engenheiros planejaram a cidade, toda bem esquadrejada, em uma imensa área e essa área era delimitada por uma avenida que se chamaria  (e ainda se chama) Avenida do Contorno.

A avenida está lá. Suas linhas, que naquele momento de inauguração da cidade representavam o limite, o “fim” da cidade, hoje já foi em muito ultrapassada pela metrópole que “dissolveu” essa linha, avançando para todos os lados. No tempo da inauguração, vivia dentro dos limites da avenida do Contorno, além dos anônimos operários que construíram a capital (viviam no bairro Funcionários), os “figurões” do governo, gente da alta aristocracia e sociedade mineira. Hoje tudo mudou e há pessoas de classe A e B vivendo bem fora daquele círculo, bem como há pessoas da classe média vivendo em bairros dentro da avenida do Contorno.

Mesmo hoje, no entanto, pode-se dizer que existe uma distribuição excludente, deixando à margem do grande centro da capital e bairros adjacentes, aonde muitas manifestações culturais acontecem e decisões importantes são tomadas, milhares de pessoas, cidadãos belorizontinos.

Porque contar essa historinha? Lembrei-me disso ontem quando circulava pelos bairros na periferia de Três Pontas. Fiz uma analogia: apesar de não haver na construção desta cidade nenhuma Avenida do Contorno, mesmo assim, ela existe. É uma linha, uma avenida do Contorno imaginária, que delimita, exclui e coloca à margem milhares de moradores, cidadãos trespontanos. Porque digo isso? Basta você ou qualquer morador de Três Pontas, por necessidade ou curiosidade, decidir cruzar essa “linha” e irá perceber essa triste realidade.

Três Pontas é uma cidade conhecida por seu talento cultural, por sua explosão de música e músicos, acredito que motivação nascida do bom exemplo de Milton Nascimento e Wagner Tiso; concentra, além de um excelente Conservatório de Música, escolas e professores de música, sedia festivais, faz apresentações de fanfarras das escolas em dias de festa (coisa que quase não existe mais em cidade nenhuma) etc. Ótimo! Parabéns à cidade e aos trespontanos por manterem as tradições e cultuarem a arte!

Mas observem: depois que a cidade cresceu, que ultrapassou a “linha limite” do centro e bairros próximos a este centro, essa mesma cultura, essas manifestações culturais também se espalharam? Tais manifestações de música, em especial,  e teatro, poesia, saíram do centro e acompanharam o crescimento da cidade? Ou seja, plagiando Milton Nascimento, a arte e a cultura foram aonde o povo está? E mais: foram construídos espaços próprios nesses bairros periféricos para receber essa arte e cultura? Existem políticas públicas no município que visem ampliar esse acesso à arte, cultura, conhecimento? Essa é a reflexão e são as perguntas as quais cheguei e peço que reflitam comigo, trespontanos. A arte, a cultura e o conhecimento (adquirido fora das escolas em feiras de ciências por exemplo, exposição de talentos de crianças e jovens carentes etc) chegaram à periferia? Ultrapassaram esse limite ou continuam dentro dessa “Contorno imaginária”?

Para terminar, só  mais uma pergunta: o que esses jovens de periferia fazem nos fins de tarde e finais de semana? Assistem a alguma apresentação musical, de dança ou teatro?  Fazem parte de algum grupo artístico? Se eles tivessem opção melhor será que estariam perambulando pelo mundo das drogas (pelo menos tanto assim)?

Deixo a vocês, cidadãos trespontanos, essas perguntas para reflexão, que se estendem aos governantes desta cidade.”

Adriana Silva Santiago

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